Todos concordamos que imagens de ressonância magnética (RNM) pressupõem determinada especialização médica, para que possam ser corretamente analisadas, comparadas e interpretadas. Pois bem, não é diferente para análises de imagens de satélite. A análise, comparação e interpretação destas, pressupõem conhecimentos básicos de sensoriamento remoto, ótica e cartografia. E, as análises feitas até então, deixam claro, que estamos esquecendo premissas básicas sobre; 1) Como funciona um sensor remoto? 2) Quais os procedimentos para avaliar a acurácia de um dado espacial? e 3) Como comparar sistemas óticos de “acuidade visual” distintas?

Os satélites que orbitam nossas cabeças, levam consigo uma pá de sensores para a produção de imagens. Logo, diferentes satélites, diferentes podem ser as características de seus sensores. Dentre outras, duas características são  importantíssimas,  as resoluções espacial e temporal.

A resolução espacial, carrega consigo o tamanho do pixel que será utilizado para construir a imagem (algo que de maneira bem tosca, pode ser comparado a acuidade visual humana). Já a resolução temporal, é inerente a data na qual será adquirida uma dada imagem.

Nas análises feitas até então, tem se comparado o delineamento de polígonos de desmatamento, originalmente interpretados sobre imagens de 56m ou 64m de resolução, obtidas em uma data X, quando soberpostos a imagens de melhor resolução espacial, de 3m de pixel, e obtidas em uma data Y. Há, portanto, dois cuidados que devem ser tomados:

Cuidado 1: Ao não se estar analisando, exatamente a mesma data, as condições atmosféricas da cena do sensor A e do sensor B, podem ser completamente distintas. Logo, a ausência de uma detecção em A ou em B, pode não ter nada a ver com erros do sistema, mas sim, estar refletindo um erro de análise, resultado da presença de nuvens em A ou B. A análise comparativa da superfície observada por sensores óticos, exigirá, sempre, que se informe a área livre de nuvens em cada imagem comparada. Sem esta informação criamos um erro metodológico, e, portanto, um erro de responsabilidade do analista, que se apressou em comparar os sistemas A e B, sem os devidos cuidados no tempo. A comparação visual de sistemas só pode ser feita quando utilizadas exatamente as mesmas imagens que deram origem a identificação do alerta. Sem a demonstração da imagem originariamente interpretada, estabelecemos um viés comparatório, o que inviabiliza a análise.

Cuidado 2: Sistemas sensores diferentes, características espaciais diferentes. Novamente, o que vimos até o momento, foi a comparação de polígonos interpretados sobre imagens de 56m ou 64m por pixel, característica do sensor AWIFS (Satélite ResourceSat-2) e WFI (Satélite CBERS-4), contrapostos a imagens com 3 metros de tamanho de pixel, característica espacial do PlanetScope, da empresa Planet. É natural, que ao comparar sistemas com “acuidades visuais” completamente distintas, constatemos divergências de forma e de área. Mas, isso não pode ser atribuído como erro direto de A em relação a B. Na verdade, e outra vez, o que temos aqui é uma falha de análise. Neste aspecto, a conclusão de erro, seria semelhante a concluirmos que um cachorro está “errado” ao enxergar os alvos que enxerga, já que comparado a uma águia, cachorros enxergam muito menos. Logo, a comparação direita entre sistemas sensores com resoluções diferentes não pode ser feita desta forma. Para tal comparação, existem rígidos critérios estatisticos que devem ser, cuidadosamente, seguidos.

Todavia, devemos sempre lembrar que objetivo central de sistemas de alerta-rápido, como o  DETER-B, é alertar a ocorrência de desmatamento, afim de se evitar que o dano ambiental se expanda ou que chegue a sua etapa final (o desmatamento do tipo corte raso), para que, só então, ao final do ano, possa ser reportado pelo projeto PRODES. Como diziam nossas mães; “Leite derramado não volta a jarra”.

Mas atentemos! Se o sistema de maior tamanho de pixel, e portanto, de maior generalismo, informa estar havendo aumento dos níveis de desmatamento, pressupõem-se que o sistema de maior acuidade, e portanto maior capacidade de detecção de desmatamentos, ainda que apresente divergências em área, para mais ou para menos, comportar-se-á de maneira a confirmar a tendência observada pelo sistema sistema-irmão. Pois é exatamente isso o que são os sistemas PRODES e DETER-B, irmãos, sistemas complementares, sendo um mais rápido, e o outro mais preciso. Negar a tendência de aumento observado pelo sistema rápido, é abster-se da oportunidade de fazer algo, antes que o momento de “fazer algo”, se torne o momento do “agora já é tarde demais”.

Espero que tenham entendido…

No mais, a ideia de que um sistema melhor, de 3m resolução, irá apontar as taxas reais, que supostamente seriam muito mais baixas, é, do ponto de vista da diminuição da taxa de desmatamento, um provável tiro no pé. Se hoje, com 56 metros por pixel, estamos verificando aumento das estimativas de desmatamento, com 3 metros por pixel, inauguraremos uma nova seara de detecção, a detecção dos desmatamentos de pequeno porte, característica, por exemplo, dos desmatamentos observados no Pará, estado que é campeão em área desmatada na Amazônia Legal. Assim, se estão assustados com os números atuais, tenham certeza que eles podem ser bem maiores que os atualmente identificados.

Referencias:

https://proceedings.science/proceedings/59/_papers/59490/download/abstract_file1

https://ieeexplore.ieee.org/document/7128317

https://www.jstor.org/stable/23255346?seq=1#metadata_info_tab_contents

Os sistemas DETER-B/PRODES e o desmatamento na Amazônia